| Jornal da Ciência
- 01/11/2006
Relatório
Stern - Aquecimento
do planeta coloca em perigo a economia mundial
Relatório oficial inglês avalia em R$
15,12 trilhões a conta global da destruição
do meio-ambiente até o final do século, se nada
for feito a partir de agora.
Marc Roche escreve de Londres para o “Le
Monde”, de Paris:
O Reino Unido apresenta-se
daqui para frente como um dos principais países envolvidos
na luta contra os efeitos do aquecimento climático.
Destinado a servir como base
para uma política que se quer decidida, o relatório
Stern, que foi tornado público em 30 de outubro, alerta
para os riscos de uma recessão econômica "de
uma amplidão catastrófica" caso nenhum
esforço for rapidamente empenhado na escala do planeta
contra o efeito-estufa.
A originalidade deste documento
de mais de 600 páginas, que foi encomendado em julho
de 2005 pelo poderoso ministro da Economia e das Finanças,
Gordon Brown, ao chefe do serviço econômico do
governo britânico, Sir Nicholas Stern, está no
fato de ele oferecer uma avaliação em números
– particularmente preocupante – do que custaria
a inexistência de um compromisso da humanidade como
um todo frente a essa ameaça.
Segundo explica Sir Nicholas,
o produto interno bruto mundial (PIB), poderia sofrer, daqui
até o final do século, uma redução
"muito grave", situada entre 5% e 20 %. O preço
a pagar para esse desaquecimento se elevaria a mais de 3,7
trilhões de libras (R$ 15,12 trilhões).
As enchentes, o derretimento
das geleiras, a diminuição dos recursos em água
que seriam provocados por essas mudanças ambientais
poderiam conduzir à "migração"
de dezenas, e até mesmo de centenas, de milhões
de "refugiados climáticos" em certas partes
do mundo, geralmente as mais pobres, tais como as áreas
costeiras por todo o planeta e a África sub-sahariana.
Os perigos apontados por esta
perícia não constituem nenhuma novidade, mesmo
se o custo anunciado das suas conseqüências é
de natureza a impressionar as mentes.
De fato, o objetivo do relatório
Stern é de rebater os argumentos que costumam ser alegados
pelos Estados os mais poluidores do planeta – os EUA,
assim como a Índia e a China –, segundo os quais
a luta contra o aquecimento planetário prejudicaria
o seu desenvolvimento econômico.
Não é verdade.
Segundo Sir Nicholas, a redução desde já
das emissões de gases de efeito estufa não iria
reduzir o PIB em mais de 1%.
A situação catastrófica
anunciada pelo relatório, "de uma amplidão
análoga àquelas que se seguiram às grandes
guerras e à grande depressão da primeira metade
do século 20", foi projetada com base nas previsões
oficiais britânicas de um aumento de 4% a 5% daqui até
2050 das temperaturas em relação aos valores
atuais.
Além das suas conclusões
macroeconômicas, a outra novidade apresentada pelo Stern
Report se dá por meio do apelo a agir rápido
e das iniciativas efetivas que ele preconiza.
"O aquecimento climático
deixou de ser apenas uma questão da alçada exclusiva
dos especialistas da proteção do meio-ambiente
e dos cientistas", sublinha Beverley Darkin, do Centro
de pesquisas londrino Chatham House sobre o problema do aquecimento.
"Este relatório
situa a responsabilidade da ação firmemente
no campo dos protagonistas da política externa e econômica".
Portanto, a palavra fica cada
vez mais com os políticos e os economistas, ao menos
aqueles que estão conscientes dos enormes interesses
que estão em jogo nesta questão.
Este parece ser o caso na
Grã-Bretanha onde está sobressaindo um consenso
político tanto à direita como à esquerda
em torno deste problema.
Aliás, na esteira da
publicação do relatório Stern, o ministro
das finanças, que é também o provável
sucessor de Tony Blair, pediu aos seus parceiros europeus
para diminuírem as suas emissões de CO2 de 30%
daqui até 2020, e de 60% daqui até 2050.
O seu colega encarregado do
meio-ambiente, David Milleband, propôs por sua vez uma
série de "taxas verdes" sobre o transporte
aéreo, o transporte rodoviário e sobre alguns
equipamentos domésticos.
Em virtude desta estratégia
fiscal, que poderia ser revelada, em 15 de novembro, no discurso
do Trono, os contribuintes britânicos serão tributados
não só sobre a sua renda, mas também
em função do seu comportamento ecológico.
"Nós estamos e
continuaremos sendo na vanguarda da luta contra as mudanças
climáticas", declarou a Comissão Européia,
que se mostrou favorável ao relatório Stern.
O Foreign Office (equivalente
ao ministério das relações exteriores)
insistiu sobre o papel-chave da Alemanha, que assume no próximo
ano a presidência conjugada do G8 dos países
os mais industrializados e da União Européia,
para dar prosseguimento a esta missão na escala mundial.
Do ponto de vista das autoridades
londrinas, a prioridade deverá ser de atuar de modo
a acelerar as negociações internacionais - visando
a encontrar um sucessor ao tratado global de Kyoto de redução
do efeito-estufa -, as quais terão início no
próximo mês em Nairóbi (Quênia).
Para incentivar os norte-americanos
a exercerem uma pressão sobre a administração
Bush, que se recusa a ratificar o protocolo, Gordon Brown
retirou um trunfo da sua cartola.
Ele contratou os serviços
de um novo e influente conselheiro, o antigo vice-presidente
americano Al Gore, cujo filme sobre a defesa do planeta Terra
vem conquistando inúmeras platéia, e que se
tornou com isso um dos protagonistas os mais ardorosos e os
mais convincentes da necessidade de uma luta contra o aquecimento
e contra a inação da administração
Bush.
As associações
de defesa do meio-ambiente, tais como o WWF (World Wildlife
Fund) entenderam perfeitamente a mensagem, interpretando a
publicação do relatório Stern como um
"apelo a despertar".
(Tradução: Jean-Yves
de Neufville) (Le Monde,uol.com/Mídia Global, 1º/11)
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