Pesquisa
FAPESP - 04/11/2008
Aprendendo com
a crise
Para o economista
inglês Nicholas Stern, autor do relatório
que mediu quanto custa combater o aquecimento global,
a crise econômica mundial traz lições
para a discussão do problema climático.
Para Stern, a crise
financeira e o aquecimento global não são
desastres naturais, mas de origem humana. Para o economista
Nicholas Stern, conselheiro do governo britânico
para assuntos de mudanças climáticas,
a crise financeira global terá impacto fundamental
nas discussões da Conferência Mundial sobre
Mudanças Climáticas. A cúpula,
que será realizada na Dinamarca em dezembro de
2009, deverá estabelecer o acordo internacional
destinado a substituir o Protocolo de Kyoto. Embora
a crise financeira possa diminuir a capacidade de investimento
dos países desenvolvidos em esforços de
redução das emissões de carbono,
ela também ensina muito sobre os riscos da falta
de sustentabilidade econômica, na opinião
de Stern, que participou nesta segunda-feira (3/11)
do workshop Avaliação do Relatório
Stern, realizado na sede da FAPESP em São Paulo,
em promoção conjunta com a Embaixada Britânica.
O relatório Stern, coordenado pelo economista
a pedido do governo britânico e publicado em 2006,
analisa os impactos econômicos das mudanças
climáticas e conclui que, com um investimento
de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, pode-se
evitar a perda de 20% do PIB em 50 anos. Durante o evento,
que integra as atividades do Programa FAPESP de Pesquisa
em Mudanças Climáticas Globais, Stern
comentou a revisão posteriormente realizada no
relatório e divulgada em abril de 2008. O novo
estudo, intitulado Acordo Global em Mudanças
Climáticas feito na Escola de Ciência Política
e Econômica de Londres (LSE, na sigla em inglês),
faz diversas propostas para a realização
de um acordo global a ser discutido na conferência
de dezembro.No novo estudo, Stern admite ter subestimado
os efeitos do aquecimento global no relatório
de 2006 e propôs que os países desenvolvidos
devem se comprometer a cortar em até 80% suas
emissões de carbono até 2050, enquanto
as nações emergentes devem concordar em
estabelecer metas de cortes até 2020. Stern,
que já foi economista-chefe e vice-presidente
do Banco Mundial, comparou os efeitos da crise financeira
mundial com as conseqüências previstas das
mudanças climáticas globais. “A
crise financeira não é um desastre natural,
assim como o aquecimento global. São desastres
de origem humana, conseqüências de se ignorar
os riscos de uma economia que não é sustentável.
O risco ignorado é geralmente amplificado. Essa
é uma lição da crise econômica
que precisa ser transposta para a crise ambiental”,
afirmou Stern. Para ele, a inércia que levou
à crise financeira não pode ser repetida
na crise climática. “Ignorar os riscos
das mudanças climáticas é muito
mais grave que ignorar os riscos financeiros. Por outro
lado, as novas tecnologias de baixa emissão de
carbono e os mercados de carbono são grandes
oportunidades abertas pela crise ambiental. E elas se
caracterizam pela sustentabilidade, ao contrário
do que acontece com as bolhas especulativas das empresas
na internet ou no mercado imobiliário”,
declarou. Citando o estudo, o economista afirmou que
a eficiência energética será central
de agora em diante, tanto para o combate aos efeitos
das mudanças climáticas como para a economia.
“As adaptações para melhorar a eficiência
energética têm grande potencial para gerar
renda e trabalho, além de representar uma fonte
de energia. A eficiência será o principal
motor do processo de recuperação, assim
como o desenvolvimento de tecnologias limpas”,
disse. Stern destacou também a necessidade de
estabelecer os preços do carbono por meio de
taxas, comércio de carbono e regulamentações.
Segundo ele, é importante definir um valor global
para o carbono, de modo a deixar claro o custo social
e ambiental de cada atividade que provoca emissões.
“O preço, que está por volta de
25 euros, em média, deverá chegar a 40
euros em poucos anos”, estimou. Para o economista,
o desenvolvimento e o clima são os problemas
centrais do século 21. “Se falharmos para
lidar com um deles, vamos falhar com o outro também.
As mudanças climáticas minam o desenvolvimento
e não vamos mais poder separar os dois assuntos.
O que chamamos de adaptação às
mudanças climáticas é um sinônimo
de desenvolvimento em uma situação hostil”,
afirmou. Economia do Clima no Brasil - Participaram
do debate o diretor científico da FAPESP, Carlos
Henrique de Brito Cruz, o professor da Faculdade de
Economia e Administração da Universidade
de São Paulo (FEA-USP) Jacques Marcovitch, o
coordenador da Comissão Especial de Bioenergia
do Estado de São Paulo, José Goldemberg,
e o pesquisador do Centro de Previsão do Tempo
e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador executivo
do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas
Globais, Carlos Nobre. Coordenador do estudo Economia
das Mudanças Climáticas no Brasil (EMCB),
realizado por um consórcio de pesquisadores de
diversas instituições, Marcovitch apresentou
durante o evento o site Economia do Clima. De acordo
com Marcovitch, o estudo terá seus resultados
consolidados apresentados a partir de junho de 2009.
“O objetivo é identificar estratégias
para lidar com os riscos das mudanças climáticas
e avaliar a efetividade das medidas de mitigação
já em curso a fim de propor políticas
públicas”, disse. Marcovitch explicou que
o estudo, cuja concepção teve início
em junho de 2007, conta com apoio da Embaixada do Reino
Unido. “Com um horizonte focado no ano de 2100
e com base nos modelos climáticos desenvolvidos
pelo CPTEC-Inpe, o projeto estuda temas como agricultura,
energia, uso da terra e desmatamento, biodiversidade,
recursos hídricos, zona costeira, migração
e saúde”, explicou. |