Lalo de Almeida - 29.mai.08 - Desmatamento
para criação de gado em Alta Floresta, Mato
Grosso, um dos municípios amazônicos recordistas
em derrubada
A floresta amazônica
deixará de existir se mais 30% dela forem destruídos.
A afirmação foi feita ontem em Manaus, durante
a conferência científica Amazônia em
Perspectiva.
"O número agora está consolidado. Se
50% de toda a Amazônia for desmatada, um novo estado
de equilíbrio vai existir no bioma", afirma
Gilvan Sampaio, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais). Hoje aproximadamente 20% de toda a floresta
amazônica, que tem mais de 8 milhões de quilômetros
quadrados, já sumiram "No Brasil, esse número
está ao redor de 17%."
E pode chegar aos 50% até o meio do século.
Um estudo de 2006 da Universidade Federal de Minas Gerais
prevê que, se o ritmo do corte raso continuar, quase
metade da floresta que sobra hoje tombará até
2050.
O novo modelo desenvolvido pelo pesquisador não considera
mais a vegetação como algo estático,
como ocorria nos estudos apresentados anteriormente. "Desta
vez, existe uma espécie de conversa entre o clima
e a vegetação", afirma Sampaio, que havia
publicado uma versão anterior de seus modelos no
ano passado.
De acordo com o estudo, que analisa a situação
da floresta num intervalo de 24 anos, a região leste
da Amazônia ainda é a mais sensível.
Como o clima depende da vegetação, e vice-versa,
a ausência de árvores na parte oriental da
Amazônia fará com que as chuvas diminuam até
40% naquela região.
"As pessoas têm a idéia de que a floresta
cortada sempre se regenera, mas nesse novo estado de equilíbrio
isso não deve mais ocorrer, pelo menos no leste da
floresta."
O estudo também mostra que a geografia do desmatamento
pouco importa para que o ponto de não-retorno da
floresta seja atingido. "A questão é
quanto você tira e não de onde". Se países
como o Peru e a Venezuela, onde a situação
da floresta é melhor hoje, começarem a desmatar
muito, todo o bioma estará em perigo.
A conseqüência desse novo equilíbrio ecológico
será bem mais impactante no lado leste. Sem chuva,
a tendência é que toda a região vire
uma savana pobre. "Não é possível
falar em cerrado, porque ele é muito mais rico do
que a capoeira que surgiria na Amazônia."
O oeste amazônico, entretanto, onde estão o
Amazonas e Roraima, continuariam a ter florestas, mesmo
nessa nova realidade climática. "A umidade continuaria
a ser trazida do Atlântico pelo vento", diz.
O desafio brasileiro para impedir que a floresta entre em
um novo estágio evolutivo parece até fácil
de ser resolvido -no papel. Dos 5 milhões de hectares
da Amazônia que estão dentro do país,
46% são protegidos por lei. Mas, na prática,
a preservação dessas regiões não
é integral.
Uma prova clara disso foi dada ontem também na conferência
de Manaus. Dados apresentados por Alberto Setzer, também
do Inpe, mostram que entre 2000 e 2007 os satélites
registraram focos de incêndio em 92% das unidades
de conservação da Amazônia. "Isso
me deixa consternado", diz Setzer.
Em Roraima e Tocantins, 100% das áreas de proteção
ambiental tiveram incêndios. "Muitas dessas unidades
de conservação não têm nem meios
para combater o fogo", afirma o pesquisador.
O sumiço de parte da floresta amazônica terá
conseqüências imediatas para o Nordeste. "A
tendência de desertificação vai aumentar
bastante", diz Sampaio. O grupo do Inpe ainda estuda
as conseqüências da possível nova Amazônia
para as demais regiões do Brasil.