Não está claro quão
difícil será para o presidente eleito dos
Estados Unidos, Barack Obama, cumprir sua promessa de tornar
o país o líder mundial no debate ambiental.
Um sinal de vontade política, pelo menos, já
foi emitido: os EUA estão de volta à mesa
de discussões sobre a crise climática mundial.
Daniel Esty, membro da equipe de transição
de Obama para energia e ambiente, afirmou que o grupo acompanhará
a conferência do clima deste ano em Poznan, Polônia,
que debate um novo acordo global para limitar a emissão
dos gases do efeito estufa. Os EUA, diz, pressionarão
para que países emergentes, como o Brasil, assumam
metas obrigatórias de redução de emissões.
Esty -professor de direito na Universidade Yale e criador
de um índice que ordena países de acordo com
suas políticas verdes- falou à Folha na semana
passada, logo antes de ser chamado para o grupo de transição
de Obama. Leia a entrevista.
FOLHA - Obama disse muitas vezes que o desafio
energético dos EUA é como mandar o homem à
Lua. E o sr. que o povo americano está pronto para
mudar sua base energética.
DANIEL ESTY - Eu acho que o povo americano está pronto
para a mudança para um futuro de energia limpa, por
múltiplas razões. Há um aumento de
preocupação sobre mudanças climáticas.
Mais de 75% da população diz que a hora de
agir chegou. Mas há mais do que isso. O público
americano não tinha uma idéia clara do quadro
das mudanças climáticas até recentemente.
Era algo longe, talvez não tão urgente. Mas
o furacão Katrina começou a dar um rosto ao
problema da mudança climática e mostrou que
não fazer nada não era boa opção.
Na segurança, também, há uma grande
frustração com a situação no
Iraque e no Oriente Médio. E o público americano
concluiu que uma economia de combustíveis fósseis
significará mais do mesmo. E há um terceiro
elemento nesta lógica: o povo americano anseia por
uma nova economia, que vá criar novos empregos.
FOLHA - O plano de energia de Obama quer
ajudar consumidores na bomba de gasolina, construir um novo
oleoduto e criar um sistema federal de comércio de
emissões. Essas não são direções
contrárias?
ESTY - Não. A chave para o progresso de uma energia
limpa é ter incentivos para a comunidade dos negócios
criar novas soluções, para desenvolver novas
tecnologias e testar novos bens, novos serviços.
Um sistema de comércio de emissões ("cap
and trade") ajuda a criar uma sinalização
do preço que diz: se você continuar com o modelo
de queimar combustíveis fósseis, criando gases
do efeito estufa, você vai pagar pelo mal que está
causando. O comércio de emissões cria incentivo
para mudança, para que as pessoas sejam mais focadas
em eficiência, e cria oportunidade para energia alternativa.
FOLHA - Haverá participação
do novo governo nas conferências do clima de Poznan,
no mês que vem, e de Copenhague, em 2009?
ESTY - Sim. A equipe de transição de Obama
estará representada em Poznam.
FOLHA - Não há perspectiva
de ratificação do Protocolo de Kyoto.
ESTY - Não. A nova administração quer
olhar para o pós-Kyoto, que será antecipado
na reunião de Copenhague em dezembro de 2009.
FOLHA - O novo governo é mais flexível
sobre a adoção de metas pelos países
emergentes?
ESTY - Eu acredito que o próximo tratado terá
de ter várias coisas bem diferentes de Kyoto. Começando
por uma revitalização do princípio
central, o das responsabilidades comuns, mas diferenciadas.
Comuns porque cada país deve assinar compromissos
obrigatórios. Então, eu acredito que espera-se
que não só China, Índia e Brasil, como
outros principais países em desenvolvimento, adotem
compromissos obrigatórios de controle das emissões.
Agora, as responsabilidades diferenciadas significam que
o nível de redução varia de país
a país. Nos EUA e na União Européia
eu esperaria uma redução substancial de emissões
em relação aos dias atuais. No que diz respeito
aos países em desenvolvimento, eu espero que a trajetória
de crescimento seja reduzida. Então, em vez de China,
talvez, crescendo 60% em emissões na próxima
década eu esperaria 20% ou 30%. Os países
ricos foram historicamente responsáveis por grande
parte do dano. Hoje a China é quem mais emite gases
do efeito estufa. Países em desenvolvimento têm
de entender que eles são fundamentais ao problema
e vitais para a solução e eles terão
de partir para a ação real no próximo
período.
FOLHA - Esse será um ponto do novo
recomeço?
ESTY - Esse é um ponto fundamental do recomeço
que eu acho que você vai ver nas negociações.
É bem claro que a convenção de Kyoto
foi profundamente falha porque não exigiu que o mundo
em desenvolvimento fosse parte da solução.
FOLHA - Os EUA terão liderança
em Copenhague?
ESTY - Uma das coisas com que a nova administração
tem se comprometido claramente é voltar a um papel
de liderança. E, realmente, não há
história de uma cooperação ambiental
bem sucedida em que os EUA estivessem de fora.
FOLHA - Mas muita conversa já foi
feita sem os Estados Unidos, as bases do acordo foram firmadas
e os EUA disseram que não iriam fazer parte. Agora
vocês vão chegar e tomar a liderança
do processo?
ESTY - Sim. A conversa começa nova.
FOLHA - Então o que vão propor?
ESTY - Não sei dizer. Ainda está em construção.
Se a pergunta é se conseguiremos ter o trabalho pronto
até Copenhague, a resposta é que provavelmente
não estará definido até lá.
FOLHA - Então haverá resquícios
de Bush em Copenhague?
ESTY - Não. Você terá, bastante, uma
nova perspectiva. Mas o ponto é que o sucesso, do
ponto de vista dos Estados Unidos, requer movimento em paralelo
do processo político doméstico com o das negociações
internacionais. Para o Congresso americano aprovar um plano
de mudanças climáticas é preciso um
sinal claro da negociação internacional de
que as fraquezas críticas do Protocolo de Kyoto serão
tratadas. Principalmente o comprometimento de ações
de países em desenvolvimento. E é claro que
a não ser que se veja os EUA comprometidos com a
ação, países em desenvolvimento ficarão
preocupados em se comprometerem também.
FOLHA - O plano energético de Obama
é uma "estatização" na qual
o governo diz que as empresas devem inovar rumo à
ecoeficiência?
ESTY - Acho que o que você verá é um
novo estilo de regulação que vai requerer,
em algum grau, uma abordagem econômica em que se paga
pelo dano causado. Nos EUA você verá não
só incentivo econômico, mas também o
que pode se chamar de uma regulação de estilo
mais tradicional, algo vital para a construção
de padrões.
FOLHA - O sr. apóia a redução
da tarifa para o álcool de cana nos EUA?
ESTY - Eu pessoalmente acho que deveria ser reduzida a zero.
Há um cálculo político complicado nos
EUA em saber se isso acontecerá. Mas acredito que
deveríamos encorajar as positivas finalidades do
espectro de biocombustíveis, incluindo o etanol da
cana. Já disse publicamente que o etanol do milho
não é uma boa solução para nossos
problemas ambientais.