Folha de São Paulo - 09/11/2008

SUCESSÃO NOS EUA / DEPOIS DE KYOTO

Plano de eleito romperá impasse ambiental


Mas promessa de Obama de reduzir emissões de gases esbarra em atraso americano após anos de negação da mudança climática

Especialistas elogiam as iniciativas que devem ainda reduzir a dependência de petróleo, mas não esperam grande mudança em 2009

Claudio Angelo - Editor de Ciência

Ao mencionar o desafio de "um planeta em perigo" como uma de suas prioridades no discurso de vitória da última terça-feira, Barack Obama deixou claro que acabou a era da negação da mudança climática global na Casa Branca.
No entanto oito anos de inação durante o governo Clinton e mais oito de franco retrocesso nessa área sob George W. Bush tornaram virtualmente impossível para os EUA cumprirem uma agenda ambiciosa de redução de emissões de gases-estufa na próxima década.
Isso significa que as políticas de clima e energia de Obama, por melhores que sejam, ainda estarão distantes do corte real de emissões necessário para livrar o mundo de um aquecimento maior do que 2C -potencialmente catastrófico- ao longo do século 21.
Pelo Protocolo de Kyoto, rejeitado por Bush, os EUA deveriam cortar 7% de suas emissões em relação aos níveis de 1990 até 2012. Nos últimos anos, no entanto, as emissões do país cresceram 14%. Hoje, a proposta mais radical em debate no Congresso, a chamada lei Lieberman/Warner/Boxer, fala em devolver as emissões ao nível de 1990 em 2020.
"Eu não esperaria uma lei final mais ambiciosa que essa", disse à Folha Elliot Diringer, do Centro Pew para Mudança Global do Clima e ex-porta-voz de Bill Clinton. "Esses números tampouco casam com a meta da União Européia, de 20% de redução abaixo do nível de 1990 em 2020."
Diringer e outros especialistas, no entanto, concordam que o sinal político dado por Obama para as negociações internacionais deve quebrar o impasse na construção de um acordo que amplie e substitua Kyoto após o fim de sua primeira fase, em 2012.
Mesmo assim, diz, uma legislação definitiva no tema dificilmente sairá em 2009 -razão pela qual afirma ser improvável um acordo internacional substancial no ano que vem.

Liderança
"Com Obama eleito, minha esperança é que os EUA possam assumir um papel de liderança", disse o holandês Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU.
Obama angariou simpatia entre os ambientalistas e os líderes europeus ao prometer na campanha reduzir as emissões americanas "na quantidade que os cientistas dizem que é necessária": em 80% abaixo dos níveis de 1990 até 2050.
Para isso, quer colocar em vigor um esquema de comércio de emissões no qual as empresas ganham cotas de emissão anuais. Quem excedê-la leva uma multa pesada; quem ficar abaixo ganha o direito de vender créditos de carbono.
Mas o principal público do discurso de Obama na área de ambiente e energia é interno: uma de suas principais propostas é apelidada de "New Deal verde", que consiste em investir US$ 150 bilhões na criação de 5 milhões de empregos na área de energia limpa.
Outra promessa é economizar em petróleo, em dez anos, o equivalente àquilo que os EUA importam do Oriente Médio e da Venezuela: 4,3 milhões de barris por dia. O último corte dessa dimensão foi no choque do petróleo de 1973.
Obama espera assim matar de uma vez os três maiores coelhos de seu governo: tirar o país da crise econômica estimulando um setor no qual os EUA são competitivos (a indústria de base tecnológica), solucionar a crise do clima e livrar o país de sua assumida dependência de combustíveis sujos, que direta ou indiretamente o levou à lama do Iraque e do Afeganistão.