Folha de S. Paulo do "Financial Times"
A recessão global resultou na maior redução da emissão de gases-estufa em ao menos quatro décadas, criando uma "oportunidade única" para afastar o mundo do padrão de crescimento altamente baseado em carbono, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia, ligada à ONU). No primeiro grande estudo do impacto da crise nas mudanças climáticas, a AIE descobriu que as emissões de dióxido de carbono a partir da queima de combustíveis fósseis sofreu uma "significativa queda" neste ano -mais do que em qualquer período nos últimos 40. A desaceleração da produção industrial é uma das responsáveis pela diminuição do gás carbônico, mas outros fatores contribuíram, como a suspensão de projetos de usinas a carvão. Pela primeira vez, as políticas públicas para cortar emissões tiveram impacto importante. A AIE estima que um quarto da baixa resulte da regulação, uma proporção "sem precedentes", diz o relatório. Três iniciativas tiveram especial efeito: a meta da União Europeia de reduzir as emissões em 20% até 2010; os padrões para as emissões de carros fixados pelos EUA; e as políticas de eficiência energética da China. Fatih Birol, economista-chefe da AIE, disse que a queda foi "surpreendente" e torna "muito menos difícil" atingir as reduções que os cientistas apontam ser necessárias para evitar um perigoso aquecimento global. "Temos uma nova situação, com as mudanças na demanda por energia e o adiamento de muitos investimentos na área", disse Birol. "Mas isso apenas tem significado se pudermos fazer uso dessa janela de oportunidade única. [Isso significa] um acordo em Copenhague." O estudo da AIE é parte do seu relatório Cenário da Energia Mundial, que será publicado em novembro. O capítulo será lançado no começo do mês que vem para que chegue em tempo às autoridades nas sessões finais de negociação antes da conferência sobre mudança climática em Copenhague (Dinamarca) em dezembro. Amanhã, líderes de governo se reunião em Nova York, nos EUA, para um seminário sobre mudança climática presidido por Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas).
GRANDES EMPRESAS BRASILEIRAS FAZEM POUCO, DIZ PESQUISA Em enquete global feita com 500 companhias, sete representantes brasileiras ganham média baixa
CLAUDIO ANGELO EDITOR DE CIÊNCIA
Apesar de se declararem preocupadas com as mudanças climáticas, as empresas brasileiras pouco têm feito para contabilizar e reduzir suas emissões de gás carbônico, o principal gás de efeito estufa. A conclusão é de um relatório a ser divulgado hoje, que avalia as ações climáticas das 500 maiores empresas do mundo. O chamado relatório Global 500 é produzido anualmente pelo CDP (Carbon Disclosure Project), ONG que representa grupo de 475 grandes investidores. Esse grupo, cujos ativos somam US$ 55 trilhões, manda questionários às grandes empresas pedindo informações sobre seus inventários de emissão de gases-estufa e suas ações para reduzi-los. As respostas são totalmente voluntárias. O questionário deste ano foi enviado a sete empresas brasileiras. A boa notícia é que 100% delas responderam -a média global foi de 82%. A má é que o grau de transparência médio das empresas foi baixo: no índice criado pelo CDP, o Brasil teve 46 pontos numa escala de 100, acima apenas de China, Taiwan e Cingapura. A Petrobras, das sete empresas brasileiras (AmBev, Vale, Itaú, Bradesco, Eletrobrás e Banco do Brasil), foi quem teve o pior desempenho, ao lado do Itaú (44 pontos). A estatal optou por divulgar dados de suas emissões só para investidores. "Não é um resultado espetacular em relação ao mundo. Muitas empresas têm desempenhos mais altos. Mas, para um mercado emergente, como o Brasil, é um resultado razoável", disse à Folha Paul Simpson, coordenador do relatório. A Vale, por outro lado, teve 74 pontos, mais do que a média das empresas dinamarquesas -um índice considerado "impressionante" por Simpson. Segundo ele, as empresas de mercados emergentes, como Brasil e China, não têm obrigação de reportar ou controlar suas emissões, já que esses países estão desobrigados de metas pelo Protocolo de Kyoto. Pela primeira vez, o CDP incluiu no relatório um índice de desempenho. Ele mede se as empresas adotam metas, se dialogam com os formuladores de políticas públicas e se produzem inovação tendo em vista mudanças climáticas. Nesse quesito, as brasileiras também vão mal, na média: têm 38 pontos, abaixo das indianas. O relatório mostra aumento no interesse das empresas em reportar suas emissões. A taxa de resposta mundial subiu de 77% em 2008 para 82%, apesar da crise. "Isso mostra que a mudança climática está ficando mais importante para os negócios", disse Simpson. Também aumentou o número de empresas que declaram suas metas de redução de emissões: foram 257 (51% do total) contra 206 (41% do total) no ano passado. Os empresários, segundo o CDP, estão buscando tanto vantagens de mercado -como ganhos de eficiência- quanto de marketing, mas também querem se antecipar a regulamentações futuras.
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